29/03/2016

CRÔNICA #007 - Post-mortem et genus vitae


Toca, Raul! Aquela lá do cowboy!!! Pode ser a da mosca também! E se quiser deixa o triângulo comigo, eu toco!

Essa seria uma das minhas primeiras frases post-mortem ao encontrar com o Maluco Beleza. Não conheci Raulzito, que deixou a vida alguns meses antes que eu nascesse. Aliás, teve um pessoal aí que morreu antes do médico olhar para minha mãe e dizer “Ele é lindo, tem a boquinha de coração!”. Entre os que escuto, inclui-se o Rei do Baião, ao qual sem dúvida eu pediria para puxar o fole e iria me candidatar a zabumbeiro. Pagode Russo, Qui nem Jiló e A Feira de Caruaru seriam presenças obrigatórias no repertório.

A propósito, há uma coincidência entre Seixas e Gonzaga. Ambos morreram no mesmo ano, no mesmo mês e claro, não no mesmo dia, seria coincidência demais, a não ser que estivessem no mesmo avião, como os Mamonas. Nesse caso não há acaso. Lembro da notícia com a tragédia dos Assassinas... A melodia do plantão do Domingo Legal, não tão legal assim, sobretudo naquele dia, continua na minha memória (e ela me deixa mais aflito que aquela outra famosa vinheta de plantão jornalístico). Episódio digno de marcar a vida de um pequenino no auge dos seus cinco aninhos. Por sorte, eu ainda não estava aqui naquele desgostoso agosto em que Luiz e Raul partiram. Já imaginou como seria se fosse?

Além da zabumba e do triângulo, eu também toparia encarar umas alfaias junto com o Mangueboy. E o clímax viria na hora de entoar os nomes dos bairros recifenses, em Rios, Pontes e Overdrives. Francisco de Assis ficaria orgulhosíssimo ao me ouvir batucando e proferindo sem titubear “... é Cais do Porto, é Caxangá, é Brasilit, é Beberibe, é CDU, Capibaribe, é o Centrão eu falei!”. Eu também não hesitaria em ajudar Dominguinhos a encontrar o Xodó dele com a marcação de um agogô. Xote e Manguebeat no além, já pensou?

Mas o que nos faz pensar que no post-mortem conseguiremos colar nessas personalidades, trocar ideias com eles e ainda mais – note-se a pretensão e o devaneio do recém-morto – chamá-los para fazer um som em homenagem a nossa chegada? Entre os sucumbidos mencionados, há os que morreram bem depois do gracejo do obstetra, e, ainda assim, não cheguei nem a trocar acenos com eles. Por que, então, conseguiria algo mais que isso depois do sepultamento ou da cremação?

Aliás, tem outro pessoal aí que está vivo e nunca sequer tive um “Salve!” correspondido. Baleiro não me enviou nenhum Telegrama. Lirinha e os encantados do Cordel do Fogo também não enviaram-me um pedaço de céu para que eu pregasse Aqui na parede do cafofo. Tampouco Zé Ramalho convidou o libriano cá para um Banquete de Signos.

Independente de um Céu com tocação de harpas ou de um Inferno com fogo e goró, ninguém sabe como vai ser quando for (há múltiplas ou nenhuma possibilidade(s), mas suponho que estas povoem nosso imaginário coletivo). Desta feita, adotarei um genus vitae onde tocarei zabumba coxa-peitoral ao som do finado Gonzagão e do vivo filho-neto do Avôhai. Batucarei as alfaias de papelão ou de madeira e couro para reproduzir a zoada dos encantados e dos homens-caranguejos. Ouvirei e cantarei junto com Zeca e com Papai, seja no aparelho de som, no caso do segundo, ou nos fones de ouvidos e shows por aí afora, no caso do primeiro, a velha canção-colírio de Raul Seixas.

E quando o hiato entre o meu berro dominical ao lado de Mamãe – e do parteiro fofo – e o último suspiro vindouro – que espero não seja suspirado nem tão cedo – concluir este ciclo e encerrar-se minha vida, caso eu não tenha nenhum parentesco com gatos, espero ter vivido essa!

Anthony Almeida | 29.03.2016

9 comentários:

  1. Gostei muito, continue nesse caminho que você vai longe. Beijos! (Louca Linda!!!)

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  2. Adorei! Muito bom!

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  3. Estilo fluente! Adorei a crônica, meus parabéns!

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  4. Não dizer mais que é uma crônica no início do texto enriquece muito mais o mesmo e deixa o leitor mais a vontade para ler, isso ai cara, uma bela evolução.

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