15/03/2016

CRÔNICA #006 - Memorial de Objetos Marcantes


Escrever é registrar. É fazer da lembrança uma memória.


Há períodos da nossa breve vida em que devemos desfrutar de alguns momentos como se fossem um cubo de gelo. Temos que usufruí-lo antes que se derreta por completo. É importante respirar o momento. E já que cubos de gelo derretem e momentos são passíveis de esquecimento, encarcerarei fagulhas deste período nesta crônica. 

Ao longo dos dias de um certo novembro parei para observar objetos marcantes que fazem parte do cotidiano. Mas não falo de quaisquer objetos. Esses objetos tiveram certa relevância durante um período de nove meses em que vivi numa cidade nova. Cheguei esperançoso de morar em uma casa legal e com pessoas bacanas. E isso aconteceu! 

Foi uma gestação completa. E como em toda gestação, houve também um nascimento. Foi uma gestação meio conturbada, pois havia uma certa descrença de minha parte no nascimento de algo. Mas nasceu. E que bom que nasceu. Não foi nenhum bebê ou filhote de animal, foi algo mais abstrato, mas tão real quanto qualquer mamífero. Nasceu uma amizade que levarei comigo para toda a vida, assim como seria se fosse um filho ou um animalzinho. E nasceu depois de um período em que a amizade, em seu significado mais amplo, parecia não fazer mais sentido. 

Como amizades não são perceptíveis através do tato, creio que é possível registrar fragmentos delas através de objetos e momentos. Vou tratar da amizade nascida a partir de alguns objetos. E inicio essa lista de objetos com aquilo que abre portas. Há quatro opções, uma minúscula sandália de dedo laranja; um passarinho que adora ficar em sua casinha; um gancho de ouro velho e um soco inglês em miniatura. Sim, são chaveiros. 

Mas não fica só por aí, a lista é bem grande. Nela existem coisas que também ficavam fora das portas que estas chaves abriam, mas não dos portões, nem do grande ventre. Um guarda-chuva xadrez e uma sombrinha amarela, enganchados num puxador de redes; um casebre azul de plástico, sempre aquecido por mulambos aconchegantes e cartões na caixa postal ou jogados por baixo da porta do quarto...

E já que estou falando dos quartos, neles também há coisas para a lista. Caixotes de madeira, que servem de sapata para as bagagens; um ventilador-roleta para um Monstro travesso; uma parede ornada por inúmeras figuras amarelas; banca escolar de carteira marrom; camisas de Pernambuco esbanjando cores; mesinha preta, seja para televisão, livros ou envelopes; bonequinhos de barro dos herdeiros de Vitalino; madeirinhas percussivas da discórdia (rá!); luminária ovo e seus tons de arco-íris (humm!); livros, pinturas e postais, cada qual no seu cada qual; e para amontoar ainda mais postcards, cartões de visitas para trocar por postais. Não obstante (pois é!), o mais importante é o chapéu de palha dos Med’s PP/SP. Pesarosamente e aprazivelmente, também há rolos de plástico bolha para embalar ou desopilar e caixas de papelão com papeizinhos verdes nessa lista. 

Na própria lista existem listas e mais listas coladas na parede, enfiadas em cadernos ou espalhadas pela sala; caixinhas de som brancas, tocando Almério, Cátia de França e Beirut – quiçá até Conrado Pêra e Johnny Hooker; colchonetes azuis infláveis, preenchidos por ar morno de um secador; quadros, máscaras e pôsteres pendurados numa parede laranja; um pisca-pisca com sainhas coloridas de brigadeiro; letrinhas organizadas, ou não, numa das bandas da geladeira; copos coloridos, especialmente o verde, nos seus variados sotaques; frasquinho de manteiga de garrafa vinda da Feira de Caruaru; cuscuzeira que prepara o cuscuz maravilha ou queima a mesa... Balãozinho de cabaça, pendurado na prateleira da sala... Spray de veneno para os pés...

Talvez estes objetos sejam um pouco herméticos. Mas provavelmente um pouco menos que este texto ao leitor não inteirado. Notório, entretanto, é o bebê viçoso que já desmamou e agora saltita e engatinha o tempo todo.


Crônica dedicada a Leo, Monstro e Nilo – por ordem alfabética. 


Anthony Almeida | 15.03.2016

2 comentários:

  1. Uma clara evolução em relação aos outros testo, só deixo um adendo, não comece dizendo se tratar de uma crônica, isso para quem possa vir a ter interesse pode quebrar o clima da leitura, apenas no pré-titulo já é mais que suficiente, mas no geral esta usando mais a comicidade e as figuras de linguagem, com a leitura e a prática isso ficara cada vez mais natural. Abraço.

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    1. Muito obrigado, Renato!
      Agradeço pelas dicas e espero sempre ver você por aqui!

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