05/04/2016

CRÔNICA #008 - O caso e a casa


Um barulho entrava pela janela e chamava a atenção dele. Mas que chororô seria esse no meio da madrugada, oxe, questionou-se arqueando uma das sobrancelhas. Abaixou o volume do notebook, que tocava alguma coisa com gaita, reco-reco, cajón, pandeirola e levantou-se da banca escolar, que tinha tido o braço com carteira marrom arrancado meses atrás para que ele pudesse ficar mais próximo do birô enquanto usava o computador. O murmúrio prosseguia. Ele pausou a música. Ajoelhou-se sobre a cama, encostando-se na janela com grades verdes em forma de losangos ou letras xis, depende de quem olha, tinha argumentado ele a futura/atual companheira de casa/amiga quando conheceu seu novo/presente quarto, e passou a brechar o que estava acontecendo no terraço.

O ganido dela prosseguia. Baixinho. E vinha de lá das bandas da frente da casa, que não tinha porta na fachada, mas tinha uma entrada lateral, viu, explicara-lhe a moça quando conheceram-se pessoalmente para negociar a divisão da moradia. A cadela não queria que ela, que dormia no primeiro quarto, acordasse e percebesse o que estava ocorrendo na cálida madrugada, daquela cidade quente demais, bicho, queixara-se um dos amigos dele quando o visitou no ano passado, ainda na outra residência. Mas ele, notívago, ouviu o lamento canino e, após titubear sobre a necessidade de verificar o episódio, resolveu averiguar. Lembrou-se que Elvira agora era mocinha, mano, boquiabrira-se a amiga no começo da semana. Deveria ser um dog-magia, rá, debochou no percurso entre o assento e a janela.

A suposição estava confirmada. A xará da Rainha das Trevas, daquele filme lá que a bruxa gira uns negócios nos peitos, né, questionara ele e confirmara sorridente ela quando os três se conheceram, esfregava-se no portão encantando o crush de rabinho balançante. A manha também seduzia o paquera. Mas os primeiros perfumes, fragrância feromônio amadeirado, que já se agarravam nos seus bigodes, eram o que conduziam a dança pré-acasalamento. Ele permaneceu sob a cama, observando o bailado. O danadinho era até jeitoso, não parecia ser um cãonalha. E a azaração progredia. Não rosnavam, ladravam ou latiam, só o gemidinho fazia-se ouvir, enquanto os focinhos se roçavam.

Mas se tocou que era um vira-lata de rua interesseiro, logo agora que ela tinha virado mocinha, hein, e chamou a cadelinha sem levantar a voz. Elvira se virou repentinamente, reconheceu a voz dele e se achegou, com um olhar faceiro de quem enfeitiçava e estava enfeitiçada pelo primeiro xodó. Sorriu com a cauda e correu de volta para o portão, que tinha aquele macete lá para abrir, conforme demonstrara a amiga na primeira semana em que passaram a partilhar do mesmo lar. O casalzinho canino não iria conseguir abri-lo. Seguiram-se alguns farejados e galanteios e ele fez outro chamamento. O processo se repetiu. 

Ele saiu da janela, pegou o chaveiro com gancho de ouro velho que estava sobre a mesa, ao lado de dois bonequinhos de barro, e foi em direção a porta da cozinha. Era preciso intervir naquele romance. Abriu a porta, que mesmo durante o dia deveria ficar trancada, pois se não passar a chave, Elvira abre, oh, demonstrara ele para a companheira, no primeiro mês de convivência. A cachorrinha correu para pular em cima dele, como sempre fazia com todos que chegavam até aquela Sweet Home, que não abrigava uma típica família tradicional brasileira. Finalmente a menininha estava longe daquele sarnento, mas não totalmente salva. Ainda.

Prendê-la no quintal, após uma minguada porção de ração, já que ela iria comer novamente ao amanhecer, e uma generosa bacia de água parecia ser uma boa solução. Foi o que ele fez, aproveitando-se do sistema de portões que você fecha o quintal e libera o corredor e o terraço, tá vendo, demonstraram e consentiram os amigos entre o final do primeiro e início do segundo mês. Agora sim, caso encerrado. Ela era muito nova para ser mãe, neném, como aprendera a chamar Elvira, arrematou ele, satisfeito.

Anthony Almeida | 01.04.2016

29/03/2016

CRÔNICA #007 - Post-mortem et genus vitae


Toca, Raul! Aquela lá do cowboy!!! Pode ser a da mosca também! E se quiser deixa o triângulo comigo, eu toco!

Essa seria uma das minhas primeiras frases post-mortem ao encontrar com o Maluco Beleza. Não conheci Raulzito, que deixou a vida alguns meses antes que eu nascesse. Aliás, teve um pessoal aí que morreu antes do médico olhar para minha mãe e dizer “Ele é lindo, tem a boquinha de coração!”. Entre os que escuto, inclui-se o Rei do Baião, ao qual sem dúvida eu pediria para puxar o fole e iria me candidatar a zabumbeiro. Pagode Russo, Qui nem Jiló e A Feira de Caruaru seriam presenças obrigatórias no repertório.

A propósito, há uma coincidência entre Seixas e Gonzaga. Ambos morreram no mesmo ano, no mesmo mês e claro, não no mesmo dia, seria coincidência demais, a não ser que estivessem no mesmo avião, como os Mamonas. Nesse caso não há acaso. Lembro da notícia com a tragédia dos Assassinas... A melodia do plantão do Domingo Legal, não tão legal assim, sobretudo naquele dia, continua na minha memória (e ela me deixa mais aflito que aquela outra famosa vinheta de plantão jornalístico). Episódio digno de marcar a vida de um pequenino no auge dos seus cinco aninhos. Por sorte, eu ainda não estava aqui naquele desgostoso agosto em que Luiz e Raul partiram. Já imaginou como seria se fosse?

Além da zabumba e do triângulo, eu também toparia encarar umas alfaias junto com o Mangueboy. E o clímax viria na hora de entoar os nomes dos bairros recifenses, em Rios, Pontes e Overdrives. Francisco de Assis ficaria orgulhosíssimo ao me ouvir batucando e proferindo sem titubear “... é Cais do Porto, é Caxangá, é Brasilit, é Beberibe, é CDU, Capibaribe, é o Centrão eu falei!”. Eu também não hesitaria em ajudar Dominguinhos a encontrar o Xodó dele com a marcação de um agogô. Xote e Manguebeat no além, já pensou?

Mas o que nos faz pensar que no post-mortem conseguiremos colar nessas personalidades, trocar ideias com eles e ainda mais – note-se a pretensão e o devaneio do recém-morto – chamá-los para fazer um som em homenagem a nossa chegada? Entre os sucumbidos mencionados, há os que morreram bem depois do gracejo do obstetra, e, ainda assim, não cheguei nem a trocar acenos com eles. Por que, então, conseguiria algo mais que isso depois do sepultamento ou da cremação?

Aliás, tem outro pessoal aí que está vivo e nunca sequer tive um “Salve!” correspondido. Baleiro não me enviou nenhum Telegrama. Lirinha e os encantados do Cordel do Fogo também não enviaram-me um pedaço de céu para que eu pregasse Aqui na parede do cafofo. Tampouco Zé Ramalho convidou o libriano cá para um Banquete de Signos.

Independente de um Céu com tocação de harpas ou de um Inferno com fogo e goró, ninguém sabe como vai ser quando for (há múltiplas ou nenhuma possibilidade(s), mas suponho que estas povoem nosso imaginário coletivo). Desta feita, adotarei um genus vitae onde tocarei zabumba coxa-peitoral ao som do finado Gonzagão e do vivo filho-neto do Avôhai. Batucarei as alfaias de papelão ou de madeira e couro para reproduzir a zoada dos encantados e dos homens-caranguejos. Ouvirei e cantarei junto com Zeca e com Papai, seja no aparelho de som, no caso do segundo, ou nos fones de ouvidos e shows por aí afora, no caso do primeiro, a velha canção-colírio de Raul Seixas.

E quando o hiato entre o meu berro dominical ao lado de Mamãe – e do parteiro fofo – e o último suspiro vindouro – que espero não seja suspirado nem tão cedo – concluir este ciclo e encerrar-se minha vida, caso eu não tenha nenhum parentesco com gatos, espero ter vivido essa!

Anthony Almeida | 29.03.2016

15/03/2016

CRÔNICA #006 - Memorial de Objetos Marcantes


Escrever é registrar. É fazer da lembrança uma memória.


Há períodos da nossa breve vida em que devemos desfrutar de alguns momentos como se fossem um cubo de gelo. Temos que usufruí-lo antes que se derreta por completo. É importante respirar o momento. E já que cubos de gelo derretem e momentos são passíveis de esquecimento, encarcerarei fagulhas deste período nesta crônica. 

Ao longo dos dias de um certo novembro parei para observar objetos marcantes que fazem parte do cotidiano. Mas não falo de quaisquer objetos. Esses objetos tiveram certa relevância durante um período de nove meses em que vivi numa cidade nova. Cheguei esperançoso de morar em uma casa legal e com pessoas bacanas. E isso aconteceu! 

Foi uma gestação completa. E como em toda gestação, houve também um nascimento. Foi uma gestação meio conturbada, pois havia uma certa descrença de minha parte no nascimento de algo. Mas nasceu. E que bom que nasceu. Não foi nenhum bebê ou filhote de animal, foi algo mais abstrato, mas tão real quanto qualquer mamífero. Nasceu uma amizade que levarei comigo para toda a vida, assim como seria se fosse um filho ou um animalzinho. E nasceu depois de um período em que a amizade, em seu significado mais amplo, parecia não fazer mais sentido. 

Como amizades não são perceptíveis através do tato, creio que é possível registrar fragmentos delas através de objetos e momentos. Vou tratar da amizade nascida a partir de alguns objetos. E inicio essa lista de objetos com aquilo que abre portas. Há quatro opções, uma minúscula sandália de dedo laranja; um passarinho que adora ficar em sua casinha; um gancho de ouro velho e um soco inglês em miniatura. Sim, são chaveiros. 

Mas não fica só por aí, a lista é bem grande. Nela existem coisas que também ficavam fora das portas que estas chaves abriam, mas não dos portões, nem do grande ventre. Um guarda-chuva xadrez e uma sombrinha amarela, enganchados num puxador de redes; um casebre azul de plástico, sempre aquecido por mulambos aconchegantes e cartões na caixa postal ou jogados por baixo da porta do quarto...

E já que estou falando dos quartos, neles também há coisas para a lista. Caixotes de madeira, que servem de sapata para as bagagens; um ventilador-roleta para um Monstro travesso; uma parede ornada por inúmeras figuras amarelas; banca escolar de carteira marrom; camisas de Pernambuco esbanjando cores; mesinha preta, seja para televisão, livros ou envelopes; bonequinhos de barro dos herdeiros de Vitalino; madeirinhas percussivas da discórdia (rá!); luminária ovo e seus tons de arco-íris (humm!); livros, pinturas e postais, cada qual no seu cada qual; e para amontoar ainda mais postcards, cartões de visitas para trocar por postais. Não obstante (pois é!), o mais importante é o chapéu de palha dos Med’s PP/SP. Pesarosamente e aprazivelmente, também há rolos de plástico bolha para embalar ou desopilar e caixas de papelão com papeizinhos verdes nessa lista. 

Na própria lista existem listas e mais listas coladas na parede, enfiadas em cadernos ou espalhadas pela sala; caixinhas de som brancas, tocando Almério, Cátia de França e Beirut – quiçá até Conrado Pêra e Johnny Hooker; colchonetes azuis infláveis, preenchidos por ar morno de um secador; quadros, máscaras e pôsteres pendurados numa parede laranja; um pisca-pisca com sainhas coloridas de brigadeiro; letrinhas organizadas, ou não, numa das bandas da geladeira; copos coloridos, especialmente o verde, nos seus variados sotaques; frasquinho de manteiga de garrafa vinda da Feira de Caruaru; cuscuzeira que prepara o cuscuz maravilha ou queima a mesa... Balãozinho de cabaça, pendurado na prateleira da sala... Spray de veneno para os pés...

Talvez estes objetos sejam um pouco herméticos. Mas provavelmente um pouco menos que este texto ao leitor não inteirado. Notório, entretanto, é o bebê viçoso que já desmamou e agora saltita e engatinha o tempo todo.


Crônica dedicada a Leo, Monstro e Nilo – por ordem alfabética. 


Anthony Almeida | 15.03.2016

01/03/2016

CRÔNICA #005 - Fusilli ao alho e óleo


Assistir um filme. Pausar o filme em uma cena de degustação de Gyros. Descobrir que existe um molho chamado Tzatziki. Continuar assistindo o filme até o fim. Descobrir que o filme foi uma adaptação de um romance gráfico. Ver resenhas audiovisuais sobre o quadrinho. Ver outras resenhas sobre outros livros. Criar uma lista dos meus livros lidos. Decepcionar-se com o tamanho da lista. Pegar um livro de crônicas com seis textos para concluir a leitura completa. Escutar a barriga pedindo um Gyros com Tzatziki. Ir em busca do alimento. 

A esta altura o leitor perspicaz já deve ter notado que não comi um Gyros, muito menos com molho Tzatziki. Afinal, em plena madrugada seria difícil sair pelas ruas da cidade em busca de um lugar que vendesse esta iguaria, que na realidade seria ainda mais difícil de encontrar pelo Brasil, já que se trata de uma comida de rua grega, e que pelo que vi no filme, popularizou-se na França. 

É um pãozinho redondo e fino que é recheado por alface, tomate picada e cebola – de preferência roxa, pois fica mais colorido e apetitoso. Acrescenta-se a carne: boi, frango ou kafta. Aqui seria possível encontrar uma leve semelhança com o churrasquinho grego (greco-brasileiro), que certamente foi inspirado no Gyros. Mas o segundo é bem mais elaborado que um pão francês com vinagrete e carnes cortadas de um espeto vertical e giratório. Talvez o nome Gyros venha desse espeto. 

O pulo do gato está justamente na próxima fase da receita, após os vegetais e a carne, acrescenta-se o tal molho, que leva iogurte – pode ser grego, para fazer jus ao nome – e pepino ralado. É isso mesmo, descobrimos outra forma de comer pepino.

Finalmente embrulha-se o pão com os ingredientes, de uma forma que ele fique parecendo um tubo. Isso pode ser feito com a ajuda de papel manteiga ou alumínio. Daí em diante as variações dependem da fome, você pode levar ao forno rapidamente, para dar uma leve tostada no pão, ou já abocanhar o cilindro. 

... 

Levanto da cama, coloco o computador na mesa e vou até a cozinha. O livro de crônicas e uma caneta vermelha me acompanham. Penso que é possível cozinhar e ler ao mesmo tempo. Enquanto a água do macarrão ferve, leio uma. O alho já está cortado em minúsculos pedacinhos. Água fervendo, acrescento o Fusilli, mexo com um garfo. É tempo de correr para a mesa e ler outra crônica, sempre marcando uma bolinha com a caneta vermelha ao lado de cada título. Agora faltam apenas quatro. Parafusos cozidos, os escorro, refogo o alho no azeite e acrescento o macarrão. Pego um prato marrom e sirvo o Fusilli. Enquanto ele esfria, mais um texto. Desta vez um apêndice que fala sobre a vida do cronista. Por fim, degusto o prato da madrugada. 

Ao término da refeição, restam quatro crônicas para a conclusão do livro. Mas não as lerei agora. Quem sabe amanhã. Este livro me acompanhou por algumas viagens e passeios por aí. Ler e marcar uma bolinha com a caneta vermelha ao lado do título tem sido um prazer, sobretudo quando foi preciso esperar por algo ou alguém. Não irei marcar todas as bolinhas que tenho direito de uma só vez! Muito menos para preencher uma lista. 

Anthony Almeida | 01.03.2016

30/09/2015

MÚSICA #027 - Flor da Saudade | Os Sertões


Este tópico tem o objetivo de mostrar e sugerir músicas, bandas e álbuns.
Assim, a ideia é mostrar o que venho ouvindo.
Vamos nessa!?

A vigésima sétima canção chama-se Flor da Saudade, interpretada pela banda pernambucana Os Sertões. Entre os integrantes da banda está Clayton Barros (violão), ex-Cordel do Fogo Encantado.

Nesta publicação irei mostrar duas versões:

1. Clipe
2. Versão ao Vivo no Showlivre

#NowPlaying

Song | Música: Flor da Saudade
Artist | Artista: Os Sertões
Album | Álbum: A Idade dos Metais
Country | País: Brazil | Brasil


1. Clipe




2. Versão ao Vivo no Showlivre




E aí, qual a versão mais bacana?
Espero que curtam o som! 
;)